19.12.14

eu vou mudar. não, não vou mudar. eu vou tentar. ousar. querer. eu vou querer sugar disso tudo o melhor e o pior. dessa maré sensível de água salgada de olho inquieto e alma molhada. desse rio de sangue - corre vivo e doído - de quem desistiu de esperar. dessa eu-mulher-cabra-flor-vaca-árvore-lua-terra-fêmea-fênix. eu não poderia ser poucas. ainda que seja outras, ainda que todas em mim. eu não saberia ser sempre. quem eu, ainda que seja eu. nem sempre quem eu gostaria de ser.

13.11.14

hoje percebi um pouco
que o amor é muito
desencontro
descontrolado
encanto de tantos lados

(você disse, eu não estava,
eu respondi, você já saiu!)

contato imediato improvisado de primeiro grau

o vácuo me deu cólica
vontade
sem fim
do seu abraço

foi como entrar num profundo quase sem fundo mergulho em mim quase sem fundo piscina de respostas sem fim sem controle não controle deixe ir deixe vir deixe essa força o ralo te puxar me puxou me sugou desentupiu transformei tudo todo fantasma polícia tortura em palhaço vovó água em mim em muitas de mim mesma espírito lúdico amor reação foi como entrar numa

13.10.14

tudo tem seu lado bom e
seu lado
mais ou menos e
seu lado ruim

tudo tem seu lado:
os cantos, ex-quinas, rodapés
cabe a mim e a você
saber quando recuar e
quando
avançar e
quando mergulhar e quando respirar

saber o quê?
eu não sei coisa
alguma, porra nenhuma
só sou curiosa

tudo tem seu fundo e
seu conteúdo e sua
superfície

às vezes acho que dá pé
puxo a água de cima pra baixo
com os braços
pego impulso e estico os dedos
dos pés
o máximo, mas não alcanço
às vezes curiosa e só

30.9.14

as mesmas. as mesmas velhas. as mesmas velhas ideias. me salvo. mas sinto dor a dor o medo. às vezes. o medo das tantas vezes. das mesmas. tuas e de todo mundo, o mundo dos mesmos. velhas roupas já andam sozinhas e eu sou só mais uma só mais salvando me sentindo, muita dor. o medo, quase. nunca, na verdade. nunca foi assim nunca nunca mesmo (agora). é a última vez de todas. é a última vez de todas as primeiras. de todas as segundas-feiras. de todas as primaveras, desse nosso aniversário. essa comemoração estranha, essa terceira pessoa que não aprendeu. parabéns. para o bem de todos os envolvidos ao redor da vida estranha que adotamos (e criamos e sustentamos). eu prometo o que não posso cumprir. eu prometo que não me meto mais. do mesmo jeito.

21.8.14

casa V

quando eu era pequena, ficava nas pontas dos pés para alcançar aquele microfone que eu imaginava estar na minha frente, me desafiando. na verdade, era só o registro do chuveiro que se transformava e amplificava minha pequena voz. na verdade, era só o eco acústico daqueles azulejos de girassois. na verdade, nem são girassois, são margaridas amarelas que se transformavam diante de mim, e abriam um jardim no meio do banheiro. pequeno. agora que sou grande, me restaram somente as margaridas, pois o registro já não tem mais graça (lavo meu corpo e meu umbigo é um espelho da alma). de dia, entra sol, à noite, apago a luz. me sinto. às vezes fria, às vezes quente, às vezes morna.

15.8.14

casa IV

a estante era laranja, de ferro.
depois, ficou verde.
ficava de frente pra janela.
depois, ficou madeira, de frente pra porta. desenhada por pai.
ali, vinis, livros, fotos, gatos, bibelôs, tv, panos de mesa, baralho, cds, dvds, fitas cassete, compactos, VHS, a história da tecnologia doméstica, a história de Florânia, desenhos de pai, plantas de mãe,
tudo para o encontro, o entretenimento, a janela aberta.
janela era branca, de levantar.
depois, ficou madeira. de abrir sempre, de fechar nunca. nem dá.
sofás só fazem flutuar, cochilar, dormir, morrer.
no sofá, minha mãe morreu, com a cabeça no meu colo, nessa sala. e nessa sala,
ela muito viveu. morreu uma vez, viveu inúmeras.
violão, música, muita música nessa sala.
música pra comer, música pra faxinar, música pra amar,
música pra regar plantas de mãe, de dinda, minhas.
agora, antes, mais tarde, e nós aqui. mulheres daqui.
acho que sempre teve rede. e só fui cair dela com 29 anos.
vim com 4. e acho que sempre teve rede.
quase sempre teve gatos. sempre teve eu.

13.8.14

casa III

remexi, revirei, abri portas, poros e porões. essa é a minha casa. aqui, colei minha sola na sua. pé com pé, conectando todos os meus pontos, pontes e meridianos nos seus. como quando você caminhava comigo em cima dos seus, pisando passo-a-passo sob meu leve peso. acho que você ainda estava ali. a vida dura todo o tempo. a vida está em um segundo e em 63 anos. ela está em todo lugar, até quando não está mais. não. me engano. mais. se não machuca quando quebra, machuca quando cata os cacos. eu nunca gostei de remédio. gosto de saber o que meu corpo pede: onde dói, onde arde. manter vivos os sentidos.

casa II

eu lembro quando tudo era mais fácil. as escolhas, simples. as pessoas, compreensivas e gentis. preocupações e pressões, vento. lembro das estações do ano, da temperatura, do som da rua, da cor do lápis. minha memória, assim como a do meu pai, é bem fraca. para compensar, ele escreve diários há mais de trinta anos, guardando os principais acontecimentos de sua vida em pequenas frases objetivas. manchetes de jornal. enquanto eu não percebo impulso em mim para imitá-lo, me esforço para manter vivos os sentidos. meu pai, através de seus diários, sabe o que causou o que. já eu, movimento imaginário automático biológico inevitável movimento. me transporto para outro tempo através das distorções que enxergo, dos ruídos que ouço, dos azedos que lambo, dos fedores que cheiro, das asperezas que toco. também dos frios na barriga, dos pêlos que arrepiam, dos gestos que me excitam. quando involuntária, descontrolada, quando impulso.

casa I

intimamente, queria dizer que me orgulho. que torcia para isso. na verdade, que esperava (implorava, insistia, imaginava, inalava) há muito tempo essa plenitude. queria dizer que, no fundo dos meus ins, lamento que o impulso para o movimento seja a minha ausência. inevitável pensar que talvez minha presença sufoque. invento tudo de novo, gosto de fazer isso. meus ciclos são aparentes, visíveis. fechei um. estou abrindo-nascendo-pisando noutro, que ainda não sei qual é, mas que tem dentro de si esse mundo que criamos. minha vida é um grande espiral. e o amor.

1.7.14


pasmo e pasto
a carne, a mata, sim - vasta, porosa, úmida
amada.
mas tenho impaciência:
são nove talentos. eu me sinto nova e velha
grito os grilos em surtos súbitos impulsos únicos
me transporto pra foto em que apareço
sentada na calçada. criança. pernas e braços e bico contorcidos
cercada de mim e de pirraça

17.5.14

lembro do momento em que decidi dormir em casa naquela noite. eu não ia, mas algo me chamava ali insistentemente. lembro que espremi dois cravos no canto da sua boca. você me pediu, estavam te incomodando. depois disso, lembro de você no meu colo. de colar meus pés nos seus, de sentir que viemos da mesma terra, e que estaríamos para sempre unidas pelos nossos pés, como quando você caminhava comigo em cima dos seus, pisando passo-a-passo sob meu leve peso.

1.4.14

seres editáveis
meditemos
sobre como sairemos
dessa cela solitária
porque um já não se basta
e o outro quer nos ver
porque nem tudo que passa
tá passando na tv

seres confortáveis
tomara que se liguem logo
no rastro químico
na falta de rima
e nas histórias contadas boca-a-boca
ouvido-a-sentido

meditemos
sobre quando sentiremos
o estalo das estrelas
eu sempre procurei os bichos
eu sempre catei meus grilos

mastigo minhas memórias

não sou acumuladora
sou colecionadora
sempre que eu passo pela Aldeia
pêlo arrepia, perna bambeia
sempre que eu passo pela Aldeia
mente desloca, alma arrudeia
sempre que eu passo pela Aldeia
palavra falta, razão passeia
sempre que eu passo pela Aldeia

oásis ruína
resto de nós
cidade rachadura
abre em seco seus clarões

e mesmo que tudo vire areia
maré se vinga
vai vazia, volta cheia

severus em luto
bico negro
sobrevoa, calado
nossos leilões
pode até ser que tudo acabe um dia.
que vire pó, evapore todo pensamento
e a atmosfera se encha de ideias.
chove novo tempo.
temporal.

cometa

lua nova e sol laranja
tudo parece fazer sentido

mas a plenitude é um
rastro de cometa que
passa voando rápido e
absoluto

prestar atenção é perdê-lo
dois pólos
antônimos de ânimos
amores e sabores no dia
humores e rubores na noite
discutem suas vontades
me pego parada escutando
me pego sentada cantando
me pego andando
Fogo em mim
Queimei, passei do ponto
Bem passada em agonia
Meu passado em banho-maria
Eu evaporo efervescente
E borbulho pro futuro

Passei do ponto
Monstro-farelo
Criatura tua
Memória e esquecimento
Crise de representatividade
E minha cara-dura-de-pau

18.2.14

faxina

das células aos céus
extensões de fios de nós
espelhos de dentro pra fora
e vice-versa, tanto faz
o que me toca, toca o mundo inteiro
e o mundo inteiro toca em mim
sou a toca que habito
cascas, camas, casas, caos
o que me tem, tenho também
e tanto faz, vice-versa
dos pêlos aos planetas
faço aqui
porque lá certamente o faria