15.8.14

casa IV

a estante era laranja, de ferro.
depois, ficou verde.
ficava de frente pra janela.
depois, ficou madeira, de frente pra porta. desenhada por pai.
ali, vinis, livros, fotos, gatos, bibelôs, tv, panos de mesa, baralho, cds, dvds, fitas cassete, compactos, VHS, a história da tecnologia doméstica, a história de Florânia, desenhos de pai, plantas de mãe,
tudo para o encontro, o entretenimento, a janela aberta.
janela era branca, de levantar.
depois, ficou madeira. de abrir sempre, de fechar nunca. nem dá.
sofás só fazem flutuar, cochilar, dormir, morrer.
no sofá, minha mãe morreu, com a cabeça no meu colo, nessa sala. e nessa sala,
ela muito viveu. morreu uma vez, viveu inúmeras.
violão, música, muita música nessa sala.
música pra comer, música pra faxinar, música pra amar,
música pra regar plantas de mãe, de dinda, minhas.
agora, antes, mais tarde, e nós aqui. mulheres daqui.
acho que sempre teve rede. e só fui cair dela com 29 anos.
vim com 4. e acho que sempre teve rede.
quase sempre teve gatos. sempre teve eu.

13.8.14

casa III

remexi, revirei, abri portas, poros e porões. essa é a minha casa. aqui, colei minha sola na sua. pé com pé, conectando todos os meus pontos, pontes e meridianos nos seus. como quando você caminhava comigo em cima dos seus, pisando passo-a-passo sob meu leve peso. acho que você ainda estava ali. a vida dura todo o tempo. a vida está em um segundo e em 63 anos. ela está em todo lugar, até quando não está mais. não. me engano. mais. se não machuca quando quebra, machuca quando cata os cacos. eu nunca gostei de remédio. gosto de saber o que meu corpo pede: onde dói, onde arde. manter vivos os sentidos.

casa II

eu lembro quando tudo era mais fácil. as escolhas, simples. as pessoas, compreensivas e gentis. preocupações e pressões, vento. lembro das estações do ano, da temperatura, do som da rua, da cor do lápis. minha memória, assim como a do meu pai, é bem fraca. para compensar, ele escreve diários há mais de trinta anos, guardando os principais acontecimentos de sua vida em pequenas frases objetivas. manchetes de jornal. enquanto eu não percebo impulso em mim para imitá-lo, me esforço para manter vivos os sentidos. meu pai, através de seus diários, sabe o que causou o que. já eu, movimento imaginário automático biológico inevitável movimento. me transporto para outro tempo através das distorções que enxergo, dos ruídos que ouço, dos azedos que lambo, dos fedores que cheiro, das asperezas que toco. também dos frios na barriga, dos pêlos que arrepiam, dos gestos que me excitam. quando involuntária, descontrolada, quando impulso.

casa I

intimamente, queria dizer que me orgulho. que torcia para isso. na verdade, que esperava (implorava, insistia, imaginava, inalava) há muito tempo essa plenitude. queria dizer que, no fundo dos meus ins, lamento que o impulso para o movimento seja a minha ausência. inevitável pensar que talvez minha presença sufoque. invento tudo de novo, gosto de fazer isso. meus ciclos são aparentes, visíveis. fechei um. estou abrindo-nascendo-pisando noutro, que ainda não sei qual é, mas que tem dentro de si esse mundo que criamos. minha vida é um grande espiral. e o amor.

1.7.14


pasmo e pasto
a carne, a mata, sim - vasta, porosa, úmida
amada.
mas tenho impaciência:
são nove talentos. eu me sinto nova e velha
grito os grilos em surtos súbitos impulsos únicos
me transporto pra foto em que apareço
sentada na calçada. criança. pernas e braços e bico contorcidos
cercada de mim e de pirraça

17.5.14

lembro do momento em que decidi dormir em casa naquela noite. eu não ia, mas algo me chamava ali insistentemente. lembro que espremi dois cravos no canto da sua boca. você me pediu, estavam te incomodando. depois disso, lembro de você no meu colo. de colar meus pés nos seus, de sentir que viemos da mesma terra, e que estaríamos para sempre unidas pelos nossos pés, como quando você caminhava comigo em cima dos seus, pisando passo-a-passo sob meu leve peso.

1.4.14

seres editáveis
meditemos
sobre como sairemos
dessa cela solitária
porque um já não se basta
e o outro quer nos ver
porque nem tudo que passa
tá passando na tv

seres confortáveis
tomara que se liguem logo
no rastro químico
na falta de rima
e nas histórias contadas boca-a-boca
ouvido-a-sentido

meditemos
sobre quando sentiremos
o estalo das estrelas
eu sempre procurei os bichos
eu sempre catei meus grilos

mastigo minhas memórias

não sou acumuladora
sou colecionadora
sempre que eu passo pela Aldeia
pêlo arrepia, perna bambeia
sempre que eu passo pela Aldeia
mente desloca, alma arrudeia
sempre que eu passo pela Aldeia
palavra falta, razão passeia
sempre que eu passo pela Aldeia

oásis ruína
resto de nós
cidade rachadura
abre em seco seus clarões

e mesmo que tudo vire areia
maré se vinga
vai vazia, volta cheia

severus em luto
bico negro
sobrevoa, calado
nossos leilões