9.2.15

e a vida começou aqui
na beira do abismo
nosso frágil ponto de vista
olhares que voavam
perdidos
pousavam perdidos

não sei se cheguei
mas a vida começou aqui
em lugares onde qualquer
coisa
podia (não) acontecer
e (nunca) aconteceu
de qualquer
outro jeito que não imaginei

a vida começou
no vôo livre
no estalo ensurdecedor
das vontades sem grades
das doenças sem curas
dos esforços em vão
a vida começou
na lágrima que caiu sem
que eu soubesse a razão
no sorriso que saiu sem
que ninguém precisasse ver
aqui nesse limite
entre terra e céu
a vida começou sem querer

22.1.15

festa de giro de mundo
a mancha no vestido
pensei falei nela
era pingo de antes
pingo de ontem
pingo de ano passado
já foi. já foram: ela,
vestido e mancha
ofereci outros presentes
para agradecer por todos os
pingos
spiros giros
daquele ano
mas Iemanjá quis o
vestido manchado
que bom,
continuamos girando.
sombra
contorno
silhueta

falésias de mim com ooutro
rup tura de conti nentes
estouro

CABRUM!

quando a pedr'água-homem
se decom
põe
e forma um grande
suco gástrico
de mundo

o que tem no fundo da terra?
                   no fundo do mar?
                       no fundo de mim?

19.12.14

eu vou mudar. não, não vou mudar. eu vou tentar. ousar. querer. eu vou querer sugar disso tudo o melhor e o pior. dessa maré sensível de água salgada de olho inquieto e alma molhada. desse rio de sangue - corre vivo e doído - de quem desistiu de esperar. dessa eu-mulher-cabra-flor-vaca-árvore-lua-terra-fêmea-fênix. eu não poderia ser poucas. ainda que seja outras, ainda que todas em mim. eu não saberia ser sempre. quem eu, ainda que seja eu. nem sempre quem eu gostaria de ser.

13.11.14

hoje percebi um pouco
que o amor é muito
desencontro
descontrolado
encanto de tantos lados

(você disse, eu não estava,
eu respondi, você já saiu!)

contato imediato improvisado de primeiro grau

o vácuo me deu cólica
vontade
sem fim
do seu abraço

foi como entrar num profundo quase sem fundo mergulho em mim quase sem fundo piscina de respostas sem fim sem controle não controle deixe ir deixe vir deixe essa força o ralo te puxar me puxou me sugou desentupiu transformei tudo todo fantasma polícia tortura em palhaço vovó água em mim em muitas de mim mesma espírito lúdico amor reação foi como entrar numa

13.10.14

tudo tem seu lado bom e
seu lado
mais ou menos e
seu lado ruim

tudo tem seu lado:
os cantos, ex-quinas, rodapés
cabe a mim e a você
saber quando recuar e
quando
avançar e
quando mergulhar e quando respirar

saber o quê?
eu não sei coisa
alguma, porra nenhuma
só sou curiosa

tudo tem seu fundo e
seu conteúdo e sua
superfície

às vezes acho que dá pé
puxo a água de cima pra baixo
com os braços
pego impulso e estico os dedos
dos pés
o máximo, mas não alcanço
às vezes curiosa e só