3.4.13

a classe classifica o clássico classificado
a ordem ordena o ordenado sórdido
são seitas sentidas, intimadas e íntimas
não aceitas sem acenos
sinceros
de querer

13.1.13

a duas mãos

equilibrando-se.
chão é tudo aquilo
que tá debaixo da cabeça.
daqui, vejo que qualquer coisa pode acontecer.
pisando com sutil leveza.
e nós aqui. há nós aqui.
quando a gente caiu, sabia que
do chão não passaria.
fendas, pequenos espaços, fundos, sem fim.
ou o fim já é a cabeça do outro.
é fácil se perder entre as brechas.
dependendo do tamanho e do tempo que elas existem.
desde que a gente olhou pra baixo pela primeira vez,
ganhamos esse medo de altura.
a pergunta é por onde escapar, se tudo
é tão chão. tão reto.
mas chão tem vida.
caminho tem vida.
com muito chão, se constrói a distância.
pisar aqui é como colocar
um ponto final.

11.12.12

tu

a roupa que tu me veste
a lente que tu me vê
a bolha que tu me envolve
a fé que tu não me crê

o tiro que tu me aponta
o verso que tu me lê
o peso que tu me sente
a fé que tu não me crê
(não lembro onde achei essa imagem)

criar o porquê
de ter que nascer, e mais

tão bom perceber
que esse nosso caos é cais

só de amolecer
você já sente que ficou pra trás

bom dia, poesia

bom dia,
poesia sem título
sem rima, sem palavra
bom dia,
poesia de descoberta
de lugar sem nome
poesias primeiras
letras de colapso
bom dia,
poesia pequena
instante de verso
pedaço de página

não sei te escrever
e prefiro continuar assim

2.11.12

deixou a porta aberta
saiu bem quieta
pra não despertar
a chuva não atrapalha
melhor que refresca
a febre que dá
ela faz esse caminho todo dia
mas dessa vez sente que quer chegar
a pedra que ela atirou enfim ecoou no lago de lá

23.10.12

como se desenha a saudade?

Botafogo

peguei minha colher pra garantir teu pedaço
tem gente que tá sempre caminhando
tem fogo que tá sempre queimando
e nós aqui
o tempo nos quer e a Real Grandeza passa
grande farsa do trono, da cama e da mesa
aquele moço que anda e risca o muro
e nós aqui

pra cada pensamento, uma contradição
para cada gesto, uma contração

9.10.12

tipo folha de caderno


fissurinha de apertar dentes
cala o bico, calafrio
mania precoce de querer cangote
jeito apressado de chegar a noite
arrepio de bicho


agora não damos mais a guia na agência.
agora tem que gerar um login.
agora tem que imprimir direto do site, querida.



cê pode fugir nêgo
mas trate de chegar
não é aqui
não é ali
não é Allah
que vai te salvar

ilustre umbigo
buraco orgulhoso da barriga
de tanto olhar pra ti
pisei na formiga



átomos de terno e gravata
cheiro de carne e alma
disfarce pra boi dormir
o pé pisa no sapato
que pisa no azulejo
que pisa no concreto
que pisa no esgoto
que pisa em mais esgoto
que pisa na terra
enfim
chão
cheiro de clara e gema
três, dois, um
explode feliz



de tão perfeito, é torto
é todo solto, sem jeito
de tão imenso é ponto
pouca causa e muito efeito
pouco caso com os quadrados
fim de linha, ângulo reto
sem defeitos, tudo certo
não giram nem ficam tontos
bom é curva no trajeto
traço livre, peito aberto
depois do salto, mergulho
de tanto barulho, silêncio
de tão longe, fica perto



vou ficar distraída
pra primavera me pegar de surpresa



nãotropeçanapressadenuncaparar
sem trapaça nem peça pra tudo ter
lembra a lambança
lambe a lembrança
até dói, mas vai passar

antes da fuga
vem sempre
a loucura
aqui não tá bom, vai pra lá
ali não tá bom, vem pra cá
mudar toda hora
pode te dar
tontura



a cidade corre
como suas ruas
a cidade me divide
entre seus canais

ela me consome
come fome fungos,
seus sabores, suas cores
e ela pede mais

e eu chamo vida



"mesmo que os caminhos sejam dentro
o mundo é flor do pé do pensamento
mesmo que os caminhos sejam muitos
nós somos sempre a voz nunca o assunto

o dia passa sem nenhuma pressa
todo mundo dorme e depois desperta
quem não gosta mais da rede que da cerca?
quem não tem mais chão que teto?
quem não chove quando a chuva chega perto?

eu e você somos muitos
nossos nós sem nós
somos um
somos muitos
ao menos somos nós." (Paul)