8.3.15

penso que o tempo é
aquela gaivota
voando sozinha sobre a Baía

eu poderia estar disponível
mas escolho a pausa
o ônibus que dá voltas
o vão central
a suspensão dos dias

de onde vêm esses navios
que aqui ancoram?
dormindo na água crespa
assistem, apenas
imóveis como as pedras

tem um buraco no céu

9.2.15

e a vida começou aqui
na beira do abismo
nosso frágil ponto de vista
olhares que voavam
perdidos
pousavam perdidos

não sei se cheguei
mas a vida começou aqui
em lugares onde qualquer
coisa
podia (não) acontecer
e (nunca) aconteceu
de qualquer
outro jeito que não imaginei

a vida começou
no vôo livre
no estalo ensurdecedor
das vontades sem grades
das doenças sem curas
dos esforços em vão
a vida começou
na lágrima que caiu sem
que eu soubesse a razão
no sorriso que saiu sem
que ninguém precisasse ver
aqui nesse limite
entre terra e céu
a vida começou sem querer

22.1.15

festa de giro de mundo
a mancha no vestido
pensei falei nela
era pingo de antes
pingo de ontem
pingo de ano passado
já foi. já foram: ela,
vestido e mancha
ofereci outros presentes
para agradecer por todos os
pingos
spiros giros
daquele ano
mas Iemanjá quis o
vestido manchado
que bom,
continuamos girando.
sombra
contorno
silhueta

falésias de mim com ooutro
rup tura de conti nentes
estouro

CABRUM!

quando a pedr'água-homem
se decom
põe
e forma um grande
suco gástrico
de mundo

o que tem no fundo da terra?
                   no fundo do mar?
                       no fundo de mim?