22.7.09

Temporal

A vida é assim, meu carinho. Feita de idas e vindas. E o tempo.. ah, o tempo! Talvez seja a coisa mais difícil do mundo escrever sobre ele. O que posso dizer é que ele nos engana. Nos acompanha, mas quando você menos percebe já nos deixou pra trás. Esse tempo, ele mesmo que nos dá tudo, que faz com que nos sintamos poderosos e senhores.. nos engana. Quando você menos espera, ele já foi. Ele passa, ele voa, ele evapora. Sabe o quê, carinho? Talvez seja ele mesmo quem vai nos dar as respostas da vida. É ele, o tempo, quem faz o juízo de nossas atitudes. Ai, carinho, queria eu ter o controle dele. Queria? Não, melhor não, muita responsabilidade. Na verdade, a maior responsabilidade do mundo, essa de ser a batuta que comanda a todos nós. A impressão que dá é que os sentimentos, os amores, os tesões, as vidas, todas elas, dependem diretamente desse tal de tempo pra serem verdadeiramente aproveitadas. Somos eternos dependentes das batidas progressivas e regressivas de nossas vidas. Que lindo que a vida é percussão. Hay que seguir el andamiento. Segue o batimento do seu coração, que ele é quem guia meu tempo. E tudo ainda parece infinito ao seu lado. E eu te amo, e o tempo nos ama. Graças a nós.


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8.7.09

Reflexo

Ele não tem mais nada a perder. Seus amores passam, e seus cabelos ficam cada dia mais longos. Cada dia é mais longo que o ontem. Ele já nem lembra do ontem. Parece que todo mundo resolveu passar, o mundo inteiro passa por seus olhos e ninguém olha nos seus olhos. Em sua invisibilidade, o espelho já não mostra mais suas angústias. Ninguém olha, e nada reflete. São só seus pensamentos passando, como tudo. A esteira da vida, os passos de cada dia, cada dia mais longos. Ele lembra daquele balão, que subiu. Escapou de suas mãos, e subiu mais alto do que seus olhos podiam enxergar. Ele sentiu pena de soltar aquela bola de gás cheia, oval, colorida. Seus dedos a largaram, ele não soube nem por que.. foi um impulso, uma vontade dessas que não permitem pensar no ontem. Como se seus dedos soubessem o que devia ser feito, mais que sua mente. Tem o corpo humano esse poder anarquista, essa falta de poder, essa potência e, ao mesmo tempo, essa impotência? Ele soltou, e agora já não o via mais. Ali, reinaram seus dedos. Libertar é não pensar no ontem, e essa era a única lembrança do ontem que ele tinha. A vida escapando por seus dedos, o balão colorido que voa. Que reflete o Sol, mas que não reflete mais suas angústias.


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