25.10.08

Liberte-se

Pegue essa flor
Aceite como prova de alguma coisa
que eu não sei bem o que é
Nem pensei, só fiz
Nem olhei, só vi
Nem amei, só senti

Pegue esse vinho
Abra como se abre uma porta,
uma janela, uma vida
Beba, entorne, se deleite..
Eu pensei nessa noite
como se ela fosse minha vida inteira

Eu quis você,
esse vinho,
essa flor..
Abri as janelas,
a garrafa,
e até a flor se abriu.

Então livre-se disso tudo
Livre-se dos cofres,
das correntes,
dos nós.
Liberte-se do que lhe prende,
e prenda-se a mim somente.


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20.10.08

Só Jesus salva

Hoje é domingo. Estou há pouco tempo na cidade, mas já sei identificar um típico domingo madrileño de outono: nem sol, nem chuva. Na verdade, sol com nuvens, o que torna o céu ainda mais lindo. A cidade inteira vai às ruas nos fins de semana. Aqui, eles não vão de um lugar ao outro.. eles vão às ruas. Centenas de pessoas caminhando com um certo ar de descompromisso, caminhando por caminhar.

Acordei e fui, com minha amiga, ao Mercado do Rastro, uma feira livre bem famosa aqui em Madrid. É como a feira hippie, da qual lembro sempre e tenho saudades.. a feira hippie do pós-praia. O chopp do pós-praia. O banho do pós-praia. Mas enfim, deixarei a saudade de lado um pouco, e enaltecerei o Rastro, que é umas dez vezes maior que a feira do Arpoador e, proporcionalmente, dez vezes mais cheia de pessoas. De passagem, sempre. Descompromissadamente caminhando.

Eu, como boa não-madrileña, não estava descompromissada. Estava com o intuito de achar cacarecos para o apartamento, ou para mim. Convenhamos que eu, que estou com 1/3 dos pertences que trouxe quando vim para este país, sou alvo fácil para vendedores de cacarecos. As opções de carência material são muitas. E lindas, todas.

Bom, vamos às compras. Minha amiga comprou dois lenços palestinos por 5 euros - e logo após viu uma barraca vendendo mais barato a 10 metros dali (todo bom comprador-de-qualquer-coisa sabe que essa é a lei universal do consumo em feirinhas). Ela comprou também alguns incensos e uma calça. Eu comprei algumas coisas a mais: além de comprar uma calça e uns incensos em cone na mesma tenda que ela comprou os dela, comprei também dois casacões usados por 5 euros e uma outra coisa que me pareceu a mais especial das compras.

A gente viu essa tenda, de enfeitinhos pro quarto, todos em madeira, e ficamos as duas fascinadas. Eram lindos. Eu gostei do espiral nas cores de arco-íris, de madeirinha, que gira com o vento. Na ponta, uma florzinha vermelha. Lindinho.. talvez esse artefato tenha me lembrado a minha casa, no Rio. A gente tem um, no corredor. Minha amiga gostou de uns bonequinhos em zepelins, que tinham binóculos, e uma haste pela qual você puxava para que as hélices girassem. Lindíssimos, mas mais caros que os meus. Eu levei, e ela não.

Enfim, depois de algumas giratórias, voltamos à nossa casa, almoçamos e sentamos para fazer o que é de costume: decidir o que faríamos depois de enchermos as panças. Eu sugeri irmos a um centro cultural que queria conhecer. Mas antes, eu queria passar no Parque do Retiro. Tava querendo sair logo de casa, aproveitar o dia. E as meninas estavam mais lentas, apesar de concordarem com a sugestão. Resultado: fui indo ao Retiro, e elas, que não estavam muito empolgadas com a idéia do parque, ficaram de ligar quando tivessem indo ao centro cultural, que se chama La Casa Encendida - lindo nome. Aí então, nos encontraríamos lá. Excelente, saí.

Fui andando pela Calle Alcala - na minha opinião, uma das mais belas de Madrid - em direção ao Retiro. Mas, quando passei por um dos muitos centros culturais de belas artes da cidade.. facinha, facinha, eu optei pelo passeio cult e abandonei o verde - só por hoje, vai.

Entrei. Parei em frente ao balcão. Um rapaz muito bem apessoado, alto, moreno, barba por fazer, de blazer e alto - mais uma vez, se aproximou e perguntou se eu gostaria de ajuda. Eu pedi a programação, ele me explicou que o centro já estava fechado, pois era domingo, mas que o cinema e o teatro ainda teriam sessões hoje. Isso significava: nada de exposições, rolés pelo museu, bibliotecas, nada. Me restou o cinema, ou seja, gastar 2,40 euros (eu tô ruim de grana, não sou mão-de-vaca, porra). Teria uma sessão do Theodor Angelopoulos, aquele cineasta grego mucho loco dos anos setenta - tá, desculpem minha ignorância, mas era dessa forma que eu reconhecia quem era. Mas são filmes excelentes, com lindos movimentos de câmera, e temáticas muito interessantes, em sua maioria mostrando os paradoxos entre as relações de poder. Enfim, mucho loco.

Mas mucho loca estava eu, pelo rapaz que trabalhava ali. Eu fui, comprei uma sessão pro filme, que começaria em uma hora, e voltei ao edifício principal. Perguntei, ao mesmo rapaz, claro, em que lugares eu poderia circular ali dentro, já que o espaço estaria fechado. Ele me mostoru o café, disse que eu poderia subir as escadas, mas que as salas estariam todas fechadas. Eu fui subindo pelas escadas, só pra não dar a viagem por perdida, e em seguida ele veio atrás de mim e sugeriu que eu subisse de elevador e descesse pelas escadas, para fazer menos esforço. Nesse momento, tive dois sentimentos arrebatadores: encatamento pleno por aquele cavalheirismo, e vontade de praticar um auto-flagelo pela burrice.

Ele disse que me acompanharia. Subimos pelo elevador, conversando amenidades. De onde você é, o que você estuda, onde você mora, já esteve no Brasil?, Salvador é lindo mesmo, no Rio também?, ai, ai. Chegamos ao último piso, e ele me disse: "Vou te levar em um lugar que é fechado ao público. Só quem trabalha aqui pode ir. É lá em cima. Vamos?".

Eu olhei pra cima, e vi luz. Na hora, intuitivamente, eu achei que fosse ser algo muito bom. Fui subindo mais dois lances de escada com aquele anjo de blazer e olhar apertado, e chegamos a uma porta. Ele abriu pra mim, e eu passei. Era o terraço daquele edifício, uma das construções mais antigas de Madrid, localizada bem no coração da cidade, ao lado de edifícios tão grandiosos quanto, ou mais. Aquele domingo de sol com nuvens me pareceu algo de... céu. Não sei explicar... algo de céu. Nuvens, raios de sol passando por entre elas, e uma vista panorâmica da cidade inteira. Eu via tudo dali de cima. Prédios, torres, sobrados, parques, avenidas, ruelas, telhados, a varanda da casa do Almodóvar, as torres dos edifícios onde ficam os ministérios do país, as torres das igrejas... e só sei isso tudo porque aquela criatura dos deuses me explicava tu-do com toda a propriedade de um guia turístico. Isso tudo, sob o olhar de uma estátua de cerca de 7 metros da deusa Minerva, que fica de posto justamente no terraço onde estávamos.

Acendemos um cigarro, conversamos mais amenidades, e eu mal olhava nos olhos dele, de tão vulnerável que me sentia ali. Estava completamente extasiada, encantada, estranha, esquisita (em português), embestada... e assim permaneci até o final. Estava meio dopada por aquela mistura de sensações, de culturas, de conversas, de olhares, de panorâmicas. Os poucos minutos que permaneci ali, cerca de dez, parecem ter durado uma eternidade. Ao mesmo tempo, ficaria ali talvez mais umas cinco eternidades como aquela.

De alguma maneira, o papo chegou ao assunto "maconha". Ele disse que fumou algumas vezes ali, e que foram algumas das melhores viagens da vida dele. Claro que eu já tinha pensado nisso. Eu até estava com um baseado apertado na minha bolsa, e falei pra ele, mas ele disse que só tinha fumado ali nas festas, quando não estava em serviço. Concordei, claro. E até já imaginava que seria essa a resposta, celestial como ele só.

Então, o rapaz me conduziu à porta, e fomos descendo até chegarmos às escadas principais do edifício, por onde eu iria até o térreo. Ele ficaria por ali, porque estava indo buscar uns documentos em uma outra sala.

- Olha, eu tenho uma fonte bem segura de maconha aqui. Posso te passar o telefone, ou eu mesmo te repasso. Te dou algumas num outro dia, você pode experimentar antes de comprar. Tô te recomendando porque é muito gostosa, eu peguei agora pra mim. E ele vai te cobrar muito barato, o mesmo preço que ele cobra pra mim.

- Nossa, perfeito. Eu estava mesmo precisando de uma fonte aqui, pra não ficar perdendo dinheiro em coisa ruim. Você pode me dar seu telefone, se quiser, e eu te ligo um dia desses pra gente combinar, o que acha?

- Claro, anota aí.

Meu celular estava sem bateria. Nessa hora, me dei conta de que minhas amigas, que estariam indo me encontrar dentro de uma hora e meia na Casa Encendida, não teriam conseguido me encontrar no Retiro, e muito menos me encontrariam lá. Àquela altura do campeonato eu estava ainda um pouco perturbada com aquela tarde. Além disso, eu não sabia os telefones delas de cabeça, ou seja, o desencontro estava traçado.

Já nervosa, pedi-lhe uma caneta, e ele me cedeu. Eu perguntei seu nome.

- Jesus.

- Como?

- Jesus!

Já um pouco nervoso, ele começou a fazer mímicas de cruz. E só aí caiu a minha ficha. Achei incrível. Poético. Espiritual. Místico, místico e místico. Anotei o telefone, e ele me perguntou qual era o meu nome.. elogiou.. disse que eu tenho traços europeus, mais precisamente italianos. E, rapidamente, eu mencionei minha descendência italiana, já flutuando.

Peguei o telefone dele. Ele não pegou o meu. Encantamento ou auto-flagelo, julguem como quiserem, eu achei isso mais um exemplo de cavalheirismo. Me deu a opção de ligar ou não. Mas insistiu que eu voltasse lá na quarta-feira, próximo dia dele de trabalho, e dessa vez com minha máquina (menos um ponto pra mim, eu tinha deixado em casa). E então, eu poderia ver as exposições, pois o prédio estaria aberto até de noite.

- E a vista à noite dali de cima é estupenda.

Eu imagino.

Nos despedimos com o habitual "hasta luego" espanhol e com os dois beijinhos, tipicamente cariocas. Fui ao café do prédio, tomei um capuccino, um copo de água, li dois capítulos de Neruda e fui ao meu filme. Maravilhoso. Se chama "Días del 36" (título em espanhol). Recomendo.

Saí do cinema, acendi mais um cigarro, e fui andando em direção à minha casa, pela mesma, mas nunca a mesma, calle Alcala. Achei o suficiente. Dali, iria ao aconchego do meu lar, tomar um copo de vinho, fumar um pouco do baseado que estava ainda na minha bolsa e descarregar toda a minha carga energética nos teclados deste computador. Foi quando, passando por uma das inúmeras praças que passo em minhas costumeiras caminhadas por aqui, encontro mais uma feirinha. Esta, bem menor que a do Rastro. E menor ainda que a hippie.

Atravessei a feira, olhando os cacarecos, como de costume. Alguns rolés depois, passei por uma tenda onde estavam sendo vendidos aqueles bonequinhos de madeira, do zepelim, que minha amiga tinha gostado. Perguntei o preço: dez euros. Doeu no meu bolso, e no meu coração. Queria muito dar de presente um daqueles pra ela.

Fui saindo da feira, de coração partido. Foi então que, passando pela última barraca, eu vi novamente os bonequinhos expostos.

- Oito euros, guapa.

Perfeito. Meu coração amoleceu, e meu bolso também. Comprei e me encaminhei ao lar. Não havia ninguém em casa. Pendurei o piloto de zepelim no teto do quarto dela, e vim ao computador. E agora, cá estou eu, neste fim de domingo madrileño, esperando que ela veja a surpresa. Enquanto espero, me acompanham aqueles dos quais eu já esperava companhia: o vinho tinto, o cigarro mentolado, o computador e, é claro, o baseado. Porque Jesus existe, é madrileño, alto, moreno, trabalha em um centro cultural... e vende maconha.


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